
Quero me cultivar a partir do risco de existir-me frágil. Tenho medo de mais tarde perceber que perdi a melhor parte do ato de viver. Perco? Tenho medo pq, agora que sei, não sei se no ato de arriscar-me serei capaz de agir meu segredo. Quando vc atravessou a porta, a dor que senti foi a pior que continuo sentindo. Não acredito que naquele dia teria sido capaz de mostrar o que então era-me uma incompreensão absurda. Saber faz-me capaz de tolerar ver-me no horror dos teus olhos? Até mesmo no teu afago. Eu nunca mais o vi. Nem me pareceu tão importante. É assim que acontece, afinal. É? E os amigos ah! os amigos; era-me tão inevitavelmente necessário cultivar uma matilha tendo a absoluta convicção de que sentir o outro só era possível, enquanto Aurélio - Aurélio?, acontecer sem qualquer espécie de questionamentos. Filosofar era-lhe essa espécie de inutilidade comprovada. Não havia toque. Afugentava-se qualquer pessoa com a mania auto-destrutiva de conseguir sentir uma certa espécie de pele empenando-se com o peso quente da Terra, sendo então ainda possível sentir o abraço provocando a lua ali. Ainda que bem apagada. Alguém passa contaminando-se com a alegria derramando-se por todo corpo de Aeglos. Por muito tempo acreditei que Helena era-me a solução. Ruímos. Até que foi-nos necessário possuir Armando. Vivemos bem por muitos dias. Por tanto tempo desviei-me da fotografia. Antes mesmo dele sair pela porta eu já sentia-me com a fotografia. Não tenho mais medo. Não esse!? Mas é que agora há essa verdade: é uma delícia combinar-me com as possibilidades que com o dia aconteço. Sentir agora é algo mais. Quer a experiência de acontecer cada vez com a possibilidade de algo mais acontecendo.
Que bobagem. Ele não conseguia conciliar a rotina diária com as demandas da razão artística. Se naquela época ele tivesse exigido um equilíbrio... Ora, ora, distanciar-se da reflexão era o equilíbrio que ele (com o ambiente pelo qual estendia-se) tolerava. O excesso de então teria sido diferente do excesso de agora? Há sempre essa ação construtiva e outra destrutiva quando processa-se uma escolha. Seja como for há sempre um resíduo. Pedindo passagem. Constituindo alicerces mais resistentes. Sim, ao fotografar queria mesmo era colocar em xeque essa vontade de querer manter as coisas como estavam. Estão. Está. Clic. Ainda continua sentindo. O germe da destruição pode ir se acumulando quando persiste-se na idéia de que o círculo é redondo. Sabê-lo espiral é apreender o toque sentido de quantas formas for inevitavelmente necessário. Será então que a vida alimentar-se-á menos da morte? Ou com a rapidez e devida decisão necessária à nossa permanência. Não vou nem evidenciar agora, assim, as artimanhas utilizadas quando cultiva-se a veracidade de círculos redondos. Aeglos deseja a câmera fotográfica como quem só quer mesmo dessa vida é uma possibilidade mais espiral de ser feliz. É por isso que não há.
Não há verdade. Será que agora começa? Continua. Barriga levemente estufada. Noite quase já caída. Com essa dor brusca. Mundo acontecendo tão absurdamente vivo bem diante olhos incapazes de reter. Quer o clic. Reconhece que não consigue abraçar o instante. Só pra que possa aprender a senti-lo assim. Assim. Aeglos gesticulando. Olhos parados de susto com suas mãos espetadas logo acima da testa. Olha em riscos rápidos para os lados. Recorda os abraços de despedida em sua avó. Era só soltá-la pra querer abraçá-la novamente. Olhos incapazes de reter. A câmera está com seu filho. Armando caminha com uma vontade quase atrapalhando. Atrapalhando? Em torno do quase um sopro avança. Até ele quase saber. Aeglos dá uma baforada no cigarro. Levada pelo vento a cinza gruda na tua calça, logo abaixo do joelho. Caminha com vontade. Um amigo de longe ensaia alegria em encontrá-lo. Não é alguém que irá cultivar-lhe essa sensação de agora. É aquele tipo de amigo em que se acredita necessário quando não se sabe bem o que fazer com o instante. Acaba-se acostumando. Assim as pessoas vão se acumulando, apertando laços, cutucando a vontade de comprar uma passagem e encontrar uma cidade onde ninguém estranho diz que sente tanta saudade de vc. Só que já é hora de dizer. Nesse bar que já estamos quase juntos, quero mesmo é sentar-me sozinho. Junto. Respirando-me com as palavras que nascem. Decifram. Deliram-se de toque com um certo escritor - numa fotocópia de algum modo largada na mesa - que Aeglos jamais ouvira falar. Mas que depois de trinta anos (descobriu mais tarde, pelo Google) publicou seus contos. Esse conto solto na mesa.
Rabo-de-burro. E que exuberância de espera até que a imagem quase-apagada-? torne-se inicialmente palpável por palavras. Tão enigmáticas. Semente e solo ferteis. Quando é preciso dizer. Vou me sentar ali. Eu ali. Aeglos apontando para as folhas de papel com ganchos capazes de matar. Olhos fixos. Onde o rabo-de-burro me encontra. Aeglos o encontra. Onde mesmo sem ter estado lá, na cidade onde luzes apagam-se de vez, ele quase soubesse o que aconteceu. O que aconteceu soubesse que ele existe. Também ambos ao mesmo tempo. Quase. Onde chove como agora enquanto pede uma cerveja. Arrepiado de curiosidade. Digitais apertando palavras.
Câmera fotográfica encaixada. Empenada por sua mão com a onipotência devida a todo e qualquer nascendo e crescendo, desenvolvendo sobrevivência à partir de memórias e ambientes propícios ao que acontece. Clic. Armando está quase como que invisível. Ainda que ali, dali, de algum modo o entorno permite-se a ele como se não houvesse vergonha, receio em combinar-se com ele. Clic. Não. Eu não estou recusando Paulo em nome da liberdade de fotografar. Não é isso. É que sem os azuis. Os azuis mágicos, e até de outras cores, eu não inflo de vermelho a possibilidade de satisfazer seu desejo. Sei que Paulo persegue-me pq de algum modo eu o hipnotizo. Tal e qual como ele hipnotiza-se com sua vontade de me matar com sua faca afiada. Clic. Nossa; e ssa foto é tão absurdamente precisa que eu quase duvido de sua capacidade estonteante. Não estou renunciando a felicidade. Estou tendo que descobrí-la. Enquanto minha resistência corpórea não tolera superar-me à tempo de, então, enquanto isso, fotografo. Clic. Clic. No máximo duas imagens. Tenho que participar. Já que desencontro-me. Desencontro-me dessa possibilidade que meu tempo e espaço de agora me dá em nome do desejo que me torna e faz-se desejo meu. Eu. Aeglos acende um cigarro. Armando esconde-se do Sol. Subordino-me à vontade minha! Clic. De onde vem esse desejo (e pq?) recusando-me ao que inclusive alimenta-me capaz de (tbm) cultivar-me desejoso? Quase destruo o que me constroe. Quase. É isso. Clic. Quase sempre vivo. Por vezes vivo-me tão pungente. Ainda que tão de súbito; a ponto de só depois eu entender de viver. Dá mais um gole na cerveja. Clic - então sei que vivo sim. É possível. Claro que é. Eu me lembro do nosso amor. Paulo e eu tão derramados pelas fendas que alguma imagem desata. Contamina sem possibilidade alguma de recusar-se. O passado toca-me quando vejo agora. Até mesmo quando pressinto que acertei no momento decisivo. Ainda que quase. É que ainda não é uma digital - já que ainda não sei apesar de não tê-la. E já que o passado toca-me quando vejo agora. Então não me canso de sempre lembrar. Pq? Pq duvido e deixo de duvidar? Clic. Duvido e deixo de duvidar. Clic. Deixo de duvidar. Que de outro modo seria capaz de superar a corrosão dos ossos, o desequilíbrio da circulação sanguínea, aqui ou fora da gravidade terrestre, tal como abre-se os olhos quando acordamos.
Helena abre os olhos num grito de ar rasgando-lhe a garganta. Sente cheiros misturados. Sua mãe, sua avó e de outras mulheres. Ouve saltos altos provocando curvas ainda mais íngrimes. O babado do sutiã vermelho da garçonete salta junto com seus seios inchados. Solta a garrafa de cerveja na mesa com petulância espumando pelo bico. Ainda que bem apagada eu sei que a lua está em algum ali. Prinspe está com as mãos em torno de seu pescoço. Com vontade de continuar apertando. Desejo tão impossível de ser contornado. Haroldo arranha sua pele. Babando. Mastigando equimoses doidas. Respiração ofegante engolida por beijos rosnando solução arcaica. Difícil de ser agarrada. E apta ao suor que os dois corpos, com o ambiente, provocam. Com a língua engole lágrimas combinadas a um corpo sufocado de suor. Olhos nos olhos tocando o que parece tão necessariamente impossível. Abraça-lhe com o mesmo carinho de sempre. Alcança-lhe com uma ternura exacerbada. Tão quase inexistente que então torna-lhe inevitavelmente necessário encontrar algo que é bem arte. Faltando-lhe encontrar o instrumento capaz dessa ternura. Esfregam-se carinhos desencontrados. Quase conseguem escapolir da eletricidade nas pontos dos dedos. Querem-se tanto. Sentem juntos o último ar. Olhos encontrados insistindo abertos, desafiando o funcionamento exigindo tremor nas pálpebras. Não há outra forma justificando a execução? Fascinados pela redenção descontrolam-se em gozos estocados para dentro e para fora. Enquanto o ar não consegue mais ser assimilado. Ambos atacaram-se simultaneamente. Continuamente. Incentivando-se ao que pedem-se. Por algum tempo o cadáver parece estar vivo. Cadáver? Toca-lhe com cada pedaço de pele. Helena arrebata-se contra si mesma. Inicialmente respirando uma ofegância quase capaz de parar-lhe os pulmões. Ela continua. Deitada no metal frio. Luzes fortes impedindo-lhe de realmente abrir os olhos. Dores fortes estalando enquanto tenta se levantar. As faces todas espalhadas por Helena erguem-lhe com a força de águas abalando e rompendo empecilhos. Seu espanto não é capaz de permanecer-lhe sem reação necessária a apoiar-se com pés tocando o chão. Frio. Tipo azulejo. Abraça seu corpo nú. Só quer mesmo é chegar em casa, tomar banho quente, vestir roupas limpas.
Não é difícil lembrar que bem há pouco tempo estava viva, remoendo um ódio absurdo, se segurando pra não saltar de mãos armadas contra o pescoço de Armando, sacudindo-lhe até entender que eu não preciso gostar dele. Não enquanto ele me olha tão de perto. Afastá-lo do caminho é a única ação capaz de manter-se viva. De pescoço maleável. Quanto mais palpável era seu grito, mais sem som era este grito. Bem há pouco acabara por morrer. Não sei quanto tempo durou. Sei que me rompi. Cortei-me em quantos pedaços foram necessários para então encontrarem-se juntos e então viver-me viva. Agora. Nua. Morta de frio. Querendo-me quente. Eu quente. Entende? Eu quente. Cheia de mulheres. Que não precisam ter saído uma do ventre da outra. Há um sangue que não corre pelas veias. Somente. Há (essas) mulheres anônimas erguendo-lhe os passos. Pequenos milagres também fazem a deferença. Surpreende-se consigo própria. De súbito engolfa-lhe um amor impossível de ser superado. Por Armando e Aurélio. Então reconhece suas vestes. Vozes se aproximam. Escondida, enquanto se cobre, quase estraga tudo com uma gargalhada. Dois homens de faces entortadas, pasmos segurando bisturis e tesouras enormes. Pra onde foi a mulher morte? Será que alguém roubou? Será que alguém mentiu? Helena está forte e lúcida como jamais foi capaz de conquistar. Agarrando com rapidez necessária fendas levando-lhe cada vez mais para fora do Hospital.
Tudo o que fiz não foi capaz de me alterar. Há uma persistência retornando-me ao começo. Sou quase o mesmo de sempre? Foi o que cada um deles perguntou. Cada qual em seu ambiente próprio. A seu modo. Vigiados pelo que busca o bem estar social. De cada um. Um? Algo sempre deixa de ser dito. Quase. É que temos fome. Há atalhos. Aeglos só precisa mesmo é lembrar. Aos poucos. Preciso lembrar de um modo tal (como se não existisse lembrança a ser pensada) que enquanto caminha... as articulações não se contaminam de um puxão incapaz de reconhecer umidade. Há conexões onde todos têm justificativas. A fragilidade da ponte é quase sempre explícita demais. Sem que o desenroso seja dito cara a cara. Olho no olho. Por respeito a um bem estar geral suavisa-se reconhecer os limites e suportar as diferenças. Enquanto isto não posso acreditar que o outro não olhar-me-á com espanto. Olhar-eu - Paulo, Helena, Prinspe, Aurélio, Armando, Haroldo, Aeglos, Consuelo, Anônimos, Sem-nomes, Esquecidos. Encouraçados num público privado que jamais se separam. Eu preciso da minha câmera. Eu não tenho, agora sei, outro modo. Mas não é só isso. Alguém tem que entrar-se em contato com o resultado - É aí então que vida começa. Uma substância constitui-se mais consistente. Ao menos quero acreditar que uma idéia desenvolvida com vivência eloquente não será incinerada, já que na continuidade da permanência humana o que teria sido palpável tornou-se o passo que faltou. Esperemos que, por exemplo, o desconhecido de Reich não seja esse passo. Esse mero passo. Afinal. Fotografo porque é preciso. Só para que o sujeito(-eu) exista e conserve-se. "Feche os olhos e veja". Aeglos quase se sacode em desequilíbrio corpóreo ao ouvir a frase dita por um homem e uma mulher. Num tom tão bem perceptível. Não é somente os efeitos do álcool. Não. De algum modo agora se escuta. Algo. Fazendo-se. Chamando-lhe ao clic. E quando. Ai - e que sopro de vontade se segurando por um desespero pedindo. Quando tiver o dedo apertando o meio do redemoinho. Vento enrolando-se quase invisível. Curvas palpáveis pelas folhas secas, jornais amassados e poeiras arqueadas. É como se a lembrança mais uma vez recuperada enfim como que esquecida quizesse o que está ao alcance das mãos estendidas e/ou inertes. Fui a possibilidade vivida e transpirada do que amanhã jamais existiu. Foi embora e não sabe sequer quando é que vai voltar. Voltando com o hábito apreendido de continuar servindo-se ao desejo alucinado de conservação da vida. Clic. Os dias serão quase (e como é difícil conservar esse quase) como sonhar à noite, enquanto que a luz da manhã só terá peso de claridade ao apertar sentido o clic. Amém. Há uma tentação irrecusável. Que me alucina. Que então escreve - Clic. Cada imagem arrepiada demais é Rainha. Somente soberana quando em no máximo dois clics. No máximo. Numa espécie de desespero de dúvida permitida. Só para que sonho e realidade (quase) ultrapassem-se. Combinem-se. Ainda que sem as propriedades
orgânicas finalmente capazes. Ainda? - Por isso mesmo. Também. Tudo isso que faço-vejo tem
certa capacidade de alterar. Desejo continuado permanece. Arisco. Não só porque racionalmente decido. Algo encontra-me - cada vez mais sentido e absurdamente decidido.
Esse é o fim.
Não posso perder o juízo. Armando abaixa a cabeça, tentando se conter. A imagem está bem na sua frente, à espera. Apertar o clic seria uma resposta. Um modo de escutar o que algo (Algo) diz. Num arrobo de alegria estupenda... agradece. Clic. Obrigado. É que é-lhe tão absurdo este toque. É sempre começo. Há que haver a decência de se superar. Na decisão da recusa há o detalhe certeiro: o cheiro. De um modo tal que o instante visto e desejado (Clic) agora é revisto. Sem que permita-se rejeitar o que é verdade, dali. Encontro demais a necessidade de reconhecer limites e suportar diferenças. Mas há o lar. Há o repouso atento. Onde cada um então entende de sentir sabendo e escolhendo viver sem sequer por algum acaso saber ao que empena-se. E só é um
modo de escutar porque por agora não ouço o trivial. O mesmo trivial que eu ainda tenho que ouvir goela abaixo. Do mesmo modo como têm que me ouvir goela abaixo.